quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Passado Empoeirado

Agora só nos restam as fotos velhas. Estão empoeiradas guardadas numa caixa no fundo do armário. A poeira voa com um só sopro. Sopro que vem da boca que você tanto quis... Uma vez. Boca que por diversas vezes pronunciou seu nome em vão, e foi mordida. A boca, que completava os olhos que brilhavam a cada vez que você passava ao alcance deles. E o cheiro da poeira sob as fotos, lembra o cheiro do vazio que você deixava cada vez que ia embora e me deixava sempre na espera.

Rasgue a carta. Ela mente. O que você deve guardar não estará escrito, amor. Eu vou te dizer. Não guarde cartas também empoeiradas pelo tempo que você está me fazendo esperar. Guarde minhas palavras. Elas podem mudar você ou podem chegar aos teus ouvidos como sopros, os mesmos sopros que fazem voar as poeiras sob as fotos.

Numa caixa está tudo o que vivemos. Parece muito contando em calendários. Mas o que vivemos cabe numa caixa, você sabia? Você nem ao menos guarda. Você se poupa das poeiras, se poupa de todas as lembranças que temos. Tens medo?

Guarde meus abraços. Os abraços que um dia te guardaram e te protegeram da carência. Ninguém sabe como estaremos amanhã, você sabe? Os abraços eram presentes embrulhados nos meus próprios braços, presentes tolos que você fazia questão de devolver. Hoje, cadê? Poeira.

No fundo do armário estão todas aquelas lembranças que você está fazendo questão de esquecer. Limpeza, poeira. Chega. Uma hora todas as aquelas caixas suas serão tomadas por novas caixas e as nossas fotos sujas vão sumir no fundo do armário. Não te avisei? Hoje, eu vou retirando detalhe por detalhe, foto por foto, poeira por poeira da nossa caixa. Jogue-a fora ou deixe-a no armário... ?

Você saberá limpar tudo comigo e criaremos uma nova caixa, mas que esta não se esconda no fundo de um armário velho e doído. Eu te ensinarei. A nova caixa será tomada por nossas fotos e flores que nascerão da poeira. Porque todos nós já fomos pó, e hoje somos o que somos e ninguém nos julga por isso. Decidiremos; Com um sopro faremos a poeira voar ou falaremos palavras em vão?

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